23.4.09

Mudança de Endereço

Caros 1 d4 - 1 leitores,

Depois de uns bons meses já com casa nova acabei de lembrar que não postei aqui minha mudança de endereço. Recebi um atraente convite do meu noivo para me juntar a ele em um blog voltado para nossas viagens, desabafos, enfim um Fábulas compartilhado com outra pessoa. Apesar de sermos dois, o meu espaço está garantido e não haverá qualquer auto-critica ao non-sense (exatamente como aqui). A vantagem é que o número de atualizações erá bem maior.

Aguardo sua visita, por favor, sintam-se à vontade e a casa é sua.

DoisContos o novo Fábulas em uma versão 2.0 =P

3.2.09

Legado - O Pacto

Ela estava com frio. Muito frio. A neve se acumulava ao seu redor - tudo o que desejava era uma lareira para se aquecer e uma bebida quente. Seus pés estavam gelados e a cauda, dormente. Olhava fixamente para o céu. Sempre ouvira falar sobre o ritual de escolha, mas nas histórias ninguém disse o quão longo e penoso era. Fazia horas que estava parada, sozinha no escuro, as roupas ritualísticas congeladas e endurecidas, o símbolos de poder ainda brilhando no escuro sob a pálida luz da lua. O ar quente exalado se condensava, fazendo pequenas nuvens ao redor. A noite estava escura e pequenos montes salpicavam o chão de branco. A jovem torcia as mãos tentando gerar algum calor. Seus lábios tremiam de frio, mas era possível notar pequenas gotas de suor molhando a base de seus cornos espiralados.

Quem sabe estivesse fazendo algo errado? Tantos anos de preparação e estudo, e os mais sábios dentre sua família de estudiosos haviam previsto que ela seria uma bruxa. Seus pais esperaram com tanta alegria por aquele momento: sua filha mais nova seguiria a tradição. Mestres do conhecimento visionários, buscando sempre reparar a mácula do corpo e da alma do Pacto, feito tanto tempo atrás por seus predecessores. A ambição corroeu o antigo império há muito caído, o egoísmo corroeu seus alicerces. Todos desconfiavam dos membros de sua raça, olhavam de esguelha, cochichavam às suas costas. Tinham fama de ladrões e violadores de tumbas (e eram realmente excepcionais nisso), bruxos de poderes estranhos que haviam feito pactos com forças além da compreensão campestre e pueril dos homens comuns. Após a queda do império seus filhos permaneceram juntos em povoados e bairros de grandes cidades, tinham sua própria cultura e tradições. Sempre se casando entre si, recebendo com alegria a volta dos pródigos e expulsando os párias dentre eles. Outros tieflings de outras comuidades sempre eram bem vindos.

Buscavam conhecimento e compreensão de todas as formas possíveis, lutando sempre contra suas naturezas - ou pelo menos aparentando fazê-lo. Tradições e generosidade eram a marca constante em suas vidas, e com Calíope não seria diferente. Mas de que tudo isso adiantava se ela estava lá, parada e com frio em silêncio esperando um chamado que não fora feito?

Lágrimas grossas rolaram nas faces escuras e a menina, quase uma moça, irrompeu em soluços angustiados. Tinha feito algo errado - falhara. O vento assobiava em seus ouvidos...

Um longo e baixo assobio... O vento gelado... Passos. Seriam realmente passos ou sua imaginação?

Eram passos. Pés leves de bailarina correndo compassadamente. Deviam estar muito longe, os passos não eram mais que impressões - poderia estar sonhando. Aos poucos o som foi aumentando. Ao invés de uma pessoa, eram várias. Pareciam dançar. O ritmo dos passos compassado, cada vez mais perto. Uma brisa especialmente gelada trouxe o som de uma risada gostosa e divertida. Pouco depois, mais risos. Pequenas vozes conversando em voz baixa em uma língua incompreensível. Risadas - leves, divertidas, convulsivas. Cada vez mais perto.

Dançavam ao seu redor, riam, gargalhavam, deixavam apenas as marcas de pés na neve. Puxavam seu vestido, jogavam bolas de neve em seu rosto, pisavam em sua cauda, davam-lhe pequenas tapas no traseiro. Fizeram-na girar. Cada vez mais rápido em turbilhão. Estava tonta. Ria. Devia ser um sonho.

Silêncio.

O vento gelado era entrecortado pelas respirações ofegantes. Pesados cascos se aproximavam. Um odor punjente de sangue e medo tomava o ar. O som de garras se arrastando era inconfundível. Pegadas minúsculas marcaram a neve dando forma a um corredor. Algo se aproximava. Os cabelos de sua nuca arrepiavam. O coração martelava. Algo se arrastava em sua direção. Aproximava-se devagar quase lânguida. A ansiedade crescia, uma pedra alojada no estômago da jovem em espectativa. Suava frio. Algo se arrastava atrás dos passos - uma cauda, talvez.

Sentiu o hálito quente em seu rosto e uma nesga de luz prateada da lua iluminou o círculo mágico. Estava cercada de pesadelos e sonhos. Pequenas criaturinhas retorcidas com aparência de madeira, outras peludas e com bocas cheias de dentes, algumas aladas com asas de morcegos e mariposas, bolas de carne ostentando uma bocarra de dentes afiados e um só olho. Pequenas
criaturinhas élficas vestidas de folhas e pétalas, pequenas humanas com asas de líbelulas. Bruxas enrrugadas e fétidas de tom esverdeado ao lado de ninfas de rara beleza com seus cabelos perfumados e enfeitados. Todos ao seu redor, em semicírculo. Uma comitiva abrindo passagem para seus senhores. Bem à frente de Calíope estava uma criatura alta e retorcida, a boca pigando
sangue e saliva, os cabelos imundos descendo até os ombros. Vestia andrajos e tinha patas de bode. Ao seu lado, um homem alto e robusto de costas retas e corpo torneado. Longos cabelos esverdeados desciam até o meio de suas costas. Ele rescindia a almíscar e âmbar, e vestia um traje de corte feito em um tecido magnífico e brilhante. Eram opostos, mas semelhantes de forma grotesca.

Abriram as bocas ao mesmo tempo e falaram em sincronismo: "Chamaste a nós? Pois viemos." A jovem assentiu com a cabeça e entoou uma velha canção, recitou palavras ancestrais e feitiços mais antigos que o tempo. As duas criaturas esperaram pacientemente. Cada um sorriu a seu modo e a beijou nos lábios. O Pacto estava feito, agora faziam parte dela.

2.2.09

Discutindo a relação com o blog ou DRB

Na sexta passada eu tive um conversa curta e importante via twitter com um bom amigo de internet o dono do .20 : Nume. Estávamos conversando sobre blogs, sucesso e coisas do gênero, e eu reclamava do fracasso absurdo que é esse meu cantinho, principalmente em relação ao Pensotopia - para quem não sabe o Penso é um blog coletivo (eu só sou um dos membros) sobre RPG, cinema e nerdices em geral. O Nume me deu um grande sacode, fez abrir os olhos: meu mimimi não vai me levar a canto nenhum, no máximo ao ridículo.

Mas porque o Penso dá certo (relativamente) e aqui vive às moscas? Bem, antes de mais nada por minha causa. Se eu sou a dona da bagaça e se não dou a devida atenção por que cargas d'água alguém mais daria? Claro que eu tenho meus fiéis amigos e 1d4 leitores daqui, e de forma nenhuma quero desmerecer seu esforço por ler o que eu escrevo e sua paciência gigante enquanto esperam uma atualização esporádica.

Esse espaço foi criado com o intuito de ser uma terapia, um alívio para meu estresse e uma forma de por para fora as histórias que ficam enchendo a minha cabeça. Eu gosto de escrever, gosto muito mesmo, mas devo admitir que minha inveja e preguiça me atrapalham muito. Explico: inveja das pessoas que escrevem bem. Leio seus textos e ao invés de me sentir estimulada fico deprimida. É ridículo! Infantil, mas é verdade. Patético, ao invés de me esforçar para fazer textos no mesmo nível ou melhores fico me lamentando e choramingando. Bom, pelo menos reconhecer um erro é o primeiro passo para consertá-lo. Coisa que eu prentendo fazer já que esse é um defeito péssimo.

Depois de um fim de semana repleto de reflexões pessoais e de revisão de conceitos, eu finalmente acordei para o fato que eu não preciso manter um tom aqui. Posso simplesmente escrever o que eu bem entender, já que o espaço é meu e deve refletir minha personalidade normalmente inconstante e meu humor bizarramente cíclico. Pretendo manter uma frequência de atualizações (o que nunca aconteceu antes) e ser menos invejosa com textos e sucessos alheios. Quem sabe até fazer esforços consientes para que esse cantinho seja mais visitado ao invés de esperar que as pessoas se interessem por milagre ou por inspiração do caos.

Outros dois pontos bem negativos daqui: os inúmeros erros de digitação e de português e o layout escuro. Eu nunca reviso meus textos antes de postá-los aqui, então sempre tem coisas terríveis de se ver - palavras bizarras, erros de concordância e falta de claridade no texto. Por mais boa vontade que se tenha, esses erros tornam a leitura muito truncada e desagradável. Além do fato de agora eu ser uma acadêmica do curso de Letras clássicas, e nada mais feio e desabonador do que uma revisora escrever erradamente. Quanto ao layout até cogitei mudar para o wordpress, mas além de terminar dando mais trabalho, eu tenho amigos que perderiam meu endereço facinho (sim, isso é para vocês Graciema e Paulo). Então ao fim é melhor só procurar um layout que torne mais fácil o ato de ler.

Espero conseguir sucesso em todas essas mudanças, sem descuidar do Pensotopia ou do Twitter. Será que eu consigo?

29.12.08

Meme: Indicação de livros

Bem... Eu quase nunca atualizo aqui então dessa vez decidi fazer diferente e atualizar esse meu lugarzinho semi-esquecido no limbo. A Allana do Brainstorm e Pensotopia me passou um meme (para quem não sabe: meme é um post com tema semelhante partilhado por vários blogs, um indicando outro como um telefone sem fio gigante).

Eu devo indicar dois livros de que eu gosto. E depois preciso convocar mais dois bloggueiros para o meme, em uma cadeia infinita e além =P

1. Belas maldições - Um livro extremamente divertido e bem escrito às quatro mãos dos talentosos e únicos Neil Gaiman (Sandman, Deuses americanos) e Terry Preachett (Série Discworld). Inteligente, bem-humorado com a refinada ironia e toneladas de humor negro que permeiam a obra desses dois premiados escritores ingleses. Depois de ler Belas Maldições o apocalipse nunca mais será o mesmo: com os caveleiros do apocalipse mais cool de todos os tempos, anjos com um pezinho no lado infernal da coisa e o demônio mais gente-boa do mundo da literatura, as páginas são um delicioso convite à risadas e à reflexão. Vale muitíssimo a pena.

2. Memórias Póstuma de Brás Cubas - Um dos mais divertidos livros do célebre escritor Machado de Assis. Esse livro é extremamente ácido e cheio de humor sutil, infelizmente não é muito apreciado pelos mais jovens como literatura de diversão. A grande estranheza do público atual surge por conta de linguagem tida hoje em dia como rebuscada, entretanto na época em que foi escrito o livro tinha linguagem coloquial e tom folhetinesco. Vale à pena passar por cima do pré-conceito criado na escola de que Machado de Assis é um livro sério e chato e se preparar para dar boas risadas com o cínico Brás Cubas que decidiu contar suas memórias depois de morto. Completamente descrente na humanidade e no caráter humano, Brás narra com escárnio as idiotices humanas cometidas por si mesmo e pelos seus convivas.

Bem, como eu sou muito sacana vou indicar para o meme o Daniel do Pensotopia (do qual eu também faço parte) e o Fred do Covil.

Bem, é isso. That's all floks!

6.10.08

Imagem de palavras ou Palvras com Imagem

    title="Wordle: Fabulas da vida">    src="http://wordle.net/thumb/wrdl/232901/Fabulas_da_vida"
style="padding:4px;border:1px solid #ddd">


Nesse site você pode criar imagens a partir de blocos de textos ou de sites. Recomendo!

23.9.08

Sombra da morte

A batalha havia sido dura. A mais dura de sua vida. Ela estava acostumada aos ferimentos, à dor e ao cheiro de morte. Sabia ver nos olhos dos homens morimbundos o rosto da morte se aproximando. Nunca tinha visto em tantos olhos o manto negro que encerra tudo. Muitos homens gemiam de dor, seus corpos lacerados, em suas bocas o gosto amargo da derrota, o fel da vergonha remexendo em suas entranhas. Muitos deles não viveriam o suficiente para ver outro amanhecer.

Apesar de odiar profundamente os cavaleiros Felden o coração de Aillah se encheu de pesar e tristeza ao contemplar homens orgulhosos destituídos de tudo... Orgulho, força, a ordem que tanto amam. A derrota fedia mais do que o sangue que empapava as roupas e as bandagens dos corpos multilados.

Mais cedo ela viu uma coruja rasgar na direção da floresta em que eles estavam acampados. Mau agouro - sempre um mau agouro. A derrota esmagadora... A partida de Leão da Montanha... Adrian infectado com um tipo de criatura grotesca... Agora seu mais querido amigo estava sob os cuidados das mãos habilidosas de Keriann. O que mais lhe doia é que não podia ajudar com uma das suas magias de cura ou providenciar uma boa-morte aos moribundos, se o fizesse certamente seria queimada e junto consigo seu filho ainda não nascido. Por isso remoia a impotência calada e engolia o orgulho aceitando ordens de um capitão qualquer.

O silêncio constrangido na floresta foi quebrado com os passos pesados de Leão da Montanha. O grande guerreiro corria e gritava sobre um ataque - o alarme fora dado. Um ataque surpresa se aproximava.

Os capitães berravam ordens. Os homens se organizavam da melhor forma que podiam. Aillah ficou para trás junto aos feridos. Tomando conta de Adrian, que já podia ficar de pé graças a uma discreta magia de cura da amiga. Ela tremia de medo. Temia por ver mais uma parede de escudos se formar, pelo exército de desmortos que se aproximava, por seu marido incosequente se dirigir alegremente para a batalha sem nem ao menos um escudo. E mais do que qualquer coisa: temia pela vida de seu filho.

A batalha foi sangrenta, difícil. Não podia conjurar magias ou se revelar e apesar disso os mortos-vivos se aproximavam cada vez mais, incansáveis. Em um esforço desesperado para fazer com que a linha avançasse entrou em combate usando apenas um bastão de madeira e as preces que tinha feito à Dama para que a protegesse.

Tudo passou em um turbilhão. Gritos, fedor de túmulo, cheiro de sangue e sangue seco em suas mãos. Sabia que se parasse morreria, então lutou. Até o limite de suas forças quando estava quase desmaiando de ânsia e exaustão... E lutou mais.

De repente... Silêncio. O clangor do aço se chocando silenciou. Os gritos de guerra deram lugar a gemidos. Tinham conseguido escapar.

Apesar de exausta e cheia de dores a jovem druidisa não descançou. As mãos ensanguentadas, cabelos revoltos e pernas tremendo. Precisava se certificar que seus amigos estavam bem, depois de tanto tempo juntos e de tudo que haviam passado um apoiando o outro ela os sentia como extensões de si mesma. Se preocupava com eles e gostava da sua companhia, apesar de nunca demonstrar. Seu coração se condoía mesmo meses após o jovem Fox se afastar. E mais do que a qualquer um, queria achar seu marido.

O homem a quem jurara amor, com quem havia compartilhado os momentos mais difíceis da sua vida. Ele havia segurado sua mão enquanto Keriann tentava desesperadamente salvar sua vida e a de seu filho. O intrépido e galante herói sujo de fuligem que a resgatou, como se fosse uma donzela em perigo, do âmago da fortaleza de Kelgroth. E há pouco fora capaz de enfrentar um exército para resgatá-la (apesar de não precisar de resgate).

Seu coração inundou de dor ao ver inerte o guerreiro Leão da Montanha. O corpo retorcido em um ângulo estranho, visivelmente fora vítima de uma magia mortal. A druidisa suspirou fundo e com os olhos repletos de lágrimas fez uma prece muda para que A Dama o recebesse de braços abertos. Quem sabe Ela ainda poderia conceder-lhe a dádiva de uma nova chance. Deixou o corpo aos cuidados do mago elfo Aennarion e seguiu.

Era estranho... Sentia cada vez mais apreensão. Todas as vezes em que tinham se envolvido em batalhas e lutas Lyon sempre a achava logo em seguida. Normalmente muito machucado, outras vezes mal conseguindo se manter de pé, mas sempre estava lá com um sorriso no rosto e braços abertos para recebê-la em um abraço e perguntar lhe como estava. Dessa vez não... Longos minutos haviam se passado e nem mesmo o som da voz alegre dele fora ouvida. Ela mal podia
respirar de apreensão. Alguma coisa estava errada.

Estava pálida, as mãos tremiam quando ela finalmente o viu. Caído no chão, um boneco de trapos ensanguentado. O coração dela falhou por um momento trespassado por uma dor lancinante. Não sentia as pernas ou enxergava qualquer coisa ao seu redor. Simplesmente correu. Correu para os braços inertes e para a boca silenciosa do marido. Jogou-se de joelhos ao seu lado. Um grito de dor ecoou pela floresta úmida de sangue. Não podia acreditar que ele estava morto. As lágrimas grossas escorriam em profusão, não era momento de orgulho ou preocupações. Era um
momento de dor.

A dor era tão intensa que sentiu seus sentidos falharem, não conseguia respirar. Suas mãos geladas tocavam o peito de seu marido ansiando por uma batida de seu coração, apenas um movimento de respiração... Mas nada. Ele estava imóvel em sua morte. Respouso dos guerreiros. As mãos delicadas limparam o sangue do belo rosto sujo do marido. A barba por fazer que tanto
gostava...Jamais roçaria em seu rosto novamente. Acariciava seus cabelos emaranhados e molhados de suor. Soltou gentilmente as espadas dos punhos cerrados do guerreiro, e fê-las repousar ao lado dele - partes de sua alma, extensões dos braços outrora cheios de vida e calor, seriam queimadas junto com ele. Ela se inclinou e deu o último beijo nos lábios brancos do seu
companheiro.

Seus companheiros e irmãos se jutaram em um pequeno círculo ao seu redor, todos com expressões de pesar. Os homens amontoavam-se em um silêncio triste e embaraçado vendo
aquela mulher diminuta e tão delicada com uma expressão de dor profunda. "Tão jovem e ainda
por cima grávida" - eram as palavras sussurradas às suas costas. Mais pessoas se aglomeravam para ver o que tinha acontecido: O filho de Drakkan, morto.

Não poderia trazê-lo de volta, perguntava Keriann, enquanto caminhavam. Não, não poderia. Ele pedira, meses atrás, que não o fizesse. Além do mais, temia que ele não voltasse como antes - lembrava amargamente do que acontecera com Fox. Não percebeu o que a arqueira falou depois - nem importava. As palavras que queria ouvir agora eram as de seu marido, dizendo que a amava. Nunca imaginou que sentiria tanta falta delas.

4.9.08

Quando o sol sair...

Os últimos flocos de neve do inverno caíam lá fora enfeitando de branco a paisagem. As cores dos casacos sobressaíam inundando as ruas apertadas com cores e fitas, até as carrugens e os cavalos pareciam mais coloridos. As luzes de dentro das casas davam um tom fantasmagórico ao ambiente. Todos apressados correndo em direção ao conforto e o calor de seus lares. O aroma das aves assando no forno e as vozes alegres enchiam o mundo de cheiros e música.

Ela estava sentada ao lado da janela de seu quarto, uma figura pálida e triste empurrando o nariz branco contra o vidro. Apertava em sua mão um lenço enquanto rezava para que seu pai voltasse logo... Tinha sido um longo inverno... Esticado pela promessa de dias melhores.

O fogo quase se apagava, não havia mais lenha. O frio dominava os braços e pernas ossudos da menina. Sua mãe tinha dito que quando o inverno terminasse seu pai voltaria e o sofrimento teria acabado. A mesa seria farta novamente... Ele traria remédios para elas... Tudo seria melhor quando a neve derretesse. A culpa era da neve, só dela. A maldição do branco caindo do céu tinha passado para as faces de sua mãe. O gelo do inverno assolando aos poucos sua casa, invadindo tudo até que mesmo o rosto de sua mãe estava gelado... Na face um sorriso triste congelado.

Rezava para que a neve derretesse e que seu pai voltasse. Ele a aqueceria e reanimaria sua mãe. Elas poderiam voltar a sorrir. Sua casa estaria cheia de aromas. Ele traria presentes dos lugares exóticos que visitou a bordo de seu navio.

Quando o homem chegou em casa no início da primavera encontrou seus dois amores imóveis, bonecas de neve, perfeitas, mesmo após o inverno.